terça-feira, 29 de janeiro de 2013

      "Se a história tcheca pudesse se repetir, seria certamente interessante experimentar a cada vez a outra alternativa e em seguida comparar os dois resultados. Como essa experiência não pode ser feita, todos os raciocínios são apenas um jogo de hipóteses.
      Einmal ist keinmal. Uma vez não conta. Uma vez é nunca. A história da Boêmia não vai se repetir uma segunda vez, nem a história da Europa. A história da Boêmia e a história da Europa são dois esboços que a inexperiência fatal da humanidade traçou. A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa, como uma coisa que vai desaparecer amanhã.
      Tomas pensou mais uma vez com uma espécia de nostalgia, quase com amor, no jornalista da silhueta alta e curvada. Esse homem agia como se a história não fosse um esboço, mas um quadro terminado. Agia como se tudo o que fizesse fosse se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno, e estava certo de que nunca iria ter duvidas sobre seus atos. Estava persuadido que tinha razão e isso não era nele sinal de um espírito limitado, mas uma marca de virtude. Ele vivia numa história diferente da de Tomas: numa história que não era (ou não tinha consciência de ser) um esboço."

A insustentável leveza do Ser - Milan Kundera
"(São sempre as mesmas perguntas que desde a infância passam pela cabeça de Tereza. Porque as perguntas realmente sérias são apenas aquelas que uma criança pode formular. Só as perguntas mais ingênuas são realmente perguntas sérias. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é uma cancela além da qual não há mais caminhos. Em outras palavras: São precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras de nossa existência)"

A insustentável leveza do Ser - Milan Kundera

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

CONFISSÃO

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mario Quintana

sábado, 22 de dezembro de 2012

“I remained too much inside my head and ended up losing my mind.”
— Edgar Allan Poe, Complete Writings

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Negação

A vida é uma negação.
Um conjunto de portas nunca abertas.
Você sai pela mesma porta todo dia,
Cruza com pessoas que nunca irá conhecer
Passa por casas que nunca irá adentrar
Cumprimenta o cara do posto de gasolina
mesmo que nunca mais irá vê-lo na vida

Escuta musicas de cantores que nunca presenciará um show
Fala com amigos que nunca conhecerá suas histórias
Passa por carros apressados indo à sabe deus aonde
Adentra as mesmas portas de sempre.
Conversa com as mesmas pessoas.
Assiste as mesmas novelas.
Os mesmos dramas diários.
As mesmas roupas.
O mesmo pensar.

A vida é uma fechação de portas.
Portas que nunca mais se abrirão.
Portas que desistimos de tentar abrir.
Pouco a Pouco.
Portas que fechamos mesmo estando abertas.

Quantas portas.
Negadas. Fechadas.
Quantos caminhos esquecidos.
E mesmo assim, insistimos
em fechar mais e mais portas.
Sair e entrar pelas mesmas.

A vida é um fechar de olhos.
A comodidade das portas ja abertas.
O medo das portas trancafiadas.
O sufoco do novo. O medo de tentar.

sábado, 3 de novembro de 2012

Antares

Mas claro que não só isso.
Revirando os incontáveis baús de memórias.
Tanto físicos quanto mentais.
Nós nos sentimos meio nostálgicos quando a chuva do mês onze nos bate na janela de casa.
A noite parece suave e quase suspirando mil e um segredos nunca contados.
É.
As vezes as coisas voltam. Os caminhos se cruzam novamente.
Vemos o quanto se mudou e o quanto se permaneceu igual.
Não posso esconder meu contentamento ao receber notícias e ouvir histórias escritas de um tempo que já passou.
Nos mostra o quanto não foi em vão tudo o que nos aconteceu e acontece.
Que por mais que tentamos esquecer, e deixar de lado e seguir. Percebemos que no fundo aquilo não precisa ficar guardado numa velha gaveta dentro do armário atrás das velhas roupas jamais usadas.
Mas que serve para nos lembrar o quanto o tempo era bom.
O quanto nós cedemos e o quanto nós choramos.
O quanto nós vencemos.
É algo valioso que nos atém à memória e sente-se o peito aquecer enquanto é lembrado.
Um tempo que parece tão longe e ao mesmo tempo tão perto.
Nessa noite.
Tantas histórias.
Tantos mundos.
Outrora quisera nossa história ter sido outra.
Nosso tempo outro.
Esse blog no fundo é criação sua.
Surgiu com você.
E o que era um meio acabou se tornando um fim.
Um segredo meu que tu sempre poderás entrar.
Fico feliz por ter reencontrado uma das coisas que perdi.
Por mais que pareça meio como uma roupa antiga que já não nos cabe mais.
Ainda sinto um alívio e uma felicidade em ter por perto alguem que por tanto andou por esse labirinto chamado Sérgio.

feliz aniversário

e que venham muitos outros.

S.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo"

-Trecho "Tabacaria" - Fernando Pessoa