quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Duas vidas

Uma vida começa. Os sentimentos vivem brutos. Dor, felicidade, amor. Tudo é vivo na primeira vida.

Mas a vida tem sempre seus desafios. As vezes as coisas não saem como planejamos.

A vida fica difícil. 

Eu sei que eles achavam que estavam me ajudando, mas envolve-los parecia ser sinonimo de problema. Dor, caos, descontrole. Uma brincadeira se tornava "arriscada". Uma amizade podia ser "perigosa". 

Quando algo acontecia, eu sentia o caos vindo. E depois de muito tempo eu comecei a associar esse sentimento de caos a eles. 

Uma nova vida nasceu. 

Essa segunda vida veio para ser aquilo que todos queriam ver quando olhavam. Uma atuação. Uma vida falsa. Uma vida que eu vivia não por mim, mas pelos outros. 

Eu mantive essa vida viva e passei a dar espaço para as duas no meu tempo. Era facil pois só precisava não ser visto por ninguem. Passava grande parte do tempo sozinho mesmo.

Passava meus dias sozinho vivendo minha primeira vida e, quando outros olhos batiam em mim, a segunda vida aparecia. Elas se confundiam como duas crianças gêmeas.

As vezes alguns vislumbres de uma, mas logo a confusão as dissipava. Me tornei o mestre em esconder. O segredo? Estar sempre atento. Sempre vigilante. Qualquer sinal, qualquer voz, qualquer olhar. Não, não basta. Qualquer potencial de ação. "E se alguem aparecesse?", "E se saíssem do trabalho mais cedo?", "E se eu vou precisar passar um final de semana inteiro viajando". 

Eu precisava administrar duas vidas. Eu precisava dar tempo pras duas respirarem. Não bastava viver escondido, eu tinha que alimentar a minha segunda vida. Vê-la crescer. Ter uma história própria.

Podem pensar que tudo piorou com a minha sexualidade. Mas pra mim eu ja vivia duas vidas de qualquer modo. Antes de tudo. Eu aprendi a cuidar de mim, apesar das dores do mundo. Das dores de quem deveria cuidar de mim. Dos olhares fiscalizadores que me forçavam a me esconder.

Até que a distância me ajudou. Me mudei de cidade. E a minha primeira vida começou a abrir espaço. De repente eu não precisava estar tão vigilante. Eu podia, dependendo da pessoa, mostrar partes de mim.

Mas eu não sabia lidar com o inevitavel caos. Não há como escapar do caos da vida. E todo caos que aparecia, eu buscava a minha segunda vida para me proteger.

A minha primeira vida foi ganhando espaço, mas minha segunda vida ia além. Abria espaço ainda mais que a outra. Tudo para envolve-la e não deixar ninguem se aproximar. Aos poucos a minha segunda vida foi se adaptando e se mesclando em um emaranhado impossivel de saber qual é qual.

A minha segunda vida é util. Ela é versátil. Ela funciona. Ela é preparada para o mundo. Ela é confiante. Não quebra facil. Perdura. Estica. Suporta tudo que for preciso.

A minha primeira vida é meu tesouro. Que eu tento guardar com todas as minhas forças. Mantenho ela viva sempre que posso. Longe dos olhos de todos. 

Me mudei de país por um tempo. E eu já não sabia mais que vida era minha.

Voltei achando que sabia e me apaixonei. 

Me vi uma pessoa que eu não conhecia. Uma que eu achava que sempre teria que ser salva. Ela gritou alto, ela deu tapas, ela chorou um choro que não tinha fim. 

E minha segunda vida evoluiu. Se tornou branda. Dócil. Até para mim mesmo.

Hoje ela se esconde de mim. Dentro de mim. Não sei mais quem é quem. Qual vida eu criei? Qual vida é minha de verdade? 

As vezes sinto que mantenho as duas vidas vivas, não importa quem está no comando. Desde que eu não abandone nenhuma das duas.

Duas vidas. Uma criada isolada. Uma criada especialmente para os outros. 

Se contorcendo entre si, dando voltas e voltas.

Quem sou eu?

domingo, 7 de setembro de 2025

Sinais

 Um sinal é tudo que eu preciso. Uma doce gota de agua caindo em um lago. 

Obsessão. Minha mente acelera de um jeito que me traz má lembranças. 

Mas o sinal não vem. O Silencio.O Imperador.

As ilusões da lua.

Uma luz que nunca se apaga.

Um fogo que queima noite adentro. 

Meu silencio se confunde com o seu. Vivemos de desencontros e má sorte.

Eu queria poder ter a chave e desvendar o que a vida esperava quando te colocou no meu caminho.

Um arrependimento? Uma lição?

Nunca um amor de verdade.

Delicado como um sorriso sincero. Um sorriso permanente toda vez. 

Um olhar de desapontamento.

Uma falha minha. Um descontrole e o esquecimento.

Passaros cantando de manhã, mas nunca para mim. 

Acordo com fogo e fumaça. Acordo com um vazio. 

A sensação de que perdi algo que nunca tive.

A sensação de que eu estou pior do que eu imaginava.

A sensação de que ainda que eu tenha remado tanto, não saí do lugar.

Eu congelei quando te vi e meu cerebro parou de funcionar.

E quem se aproveitou disso foi meu coração que não sabe lidar com sentimentos.

Eu queria me perder. Eu queria te encontrar.

E encontrei o fim.

domingo, 3 de novembro de 2024

Confissões

Há anos que eu não escrevo.  Gostaria de pensar que é porque eu não tinha mais tanta coisa para botar em palavras. Escrever sempre foi uma forma de tirar algo do meu coração, colocar em palavras e conseguir retirar da minha cabeça. Com as palavras eu conseguia amenizar uma dor que eu carregava e me ajudou por muito tempo a me entender e refletir sobre quem eu sou. Tentar comunicar o incomunicável. Uma brecha nas paredes do meu ser por onde vazavam resquícios de meu verdadeiro eu. Nunca pretendi que essas palavras fossem lidas por outras pessoas, apesar de em algums momentos eu ter compartilhado com algumas poucas que considerava dignas. 
A verdade é que escrever é um grito por socorro. Uma carta aos desinteressados. Uma súplica para alguem que tenha coragem o suficiente de olhar para essa criatura estranha que escreve.
Sempre fui um garoto diferente. Não me sentia parte de nada e passava muito tempo dentro da minha cabeça. Me isolava do mundo e vivia em meus sonhos, onde tudo ia dar certo. Vivia num futuro que não importava se seria real. Construía relacionamentos que nunca iriam acontecer. Tive horas, dias, meses de conversas com pessoas que nunca trocaria uma palavra em voz alta.
O tempo não é nosso amigo. O tempo é carrasco. O tempo não se importa. 
Quando me vi com mais de 30 anos e uma vida que passei num sono profundo, não sinto coragem de acordar. Tenho medo de ser quem eu sou, por isso fujo pra ser alguem que eu gostaria que fosse. Não preciso dizer que quem passa maior parte do tempo em sua própria mente, acaba por não viver nada. 
Tenho uma vida que não é minha. Uma voz que não reconheço. Uma face no espelho que evito olhar por tempo demais. 
Quando parei de escrever, achei que estava me curando dessas dores. Acordando para um eu que poderia se apresentar pro mundo. Que criaria conexões e histórias reais. 
Não é verdade. Era uma fuga mais profunda do que eu jamais alcancei. Me afundei tanto que parei de sonhar. Calaram-se as vozes da minha mente e tudo que sobrou era uma casca vazia e sem nada de real. Ainda tento aos poucos desamassar e desdobrar esse emaranhado labiríntico que se tornou minha alma. Não é fácil. 
Resolvi escrever essa confissão, para tentar abrir as portas do meu coração novamente. Tentar novamente me descobrir. Acordar de verdade. Viver a vida que eu sinto que devo viver. 
Ainda não sei como. Não sei qual caminho percorrer. 
O mundo durante uma pandemia trouxe perdas para todos. Para mim veio na forma da minha mãe. Perdi minha mãe e um vazio tomou conta do espaço em que ela preenchia. Descobri depois de muito tempo que parte de mim se foi junto, enquanto parte de mim lutou para mante-la viva. A voz da minha mente tomou forma da voz dela (ou será que sempre foi?) e quando me vi afundando, tive que mata-la de novo. Hoje tenho que mata-la todos os dias. É uma dor que não passa, mas deixar isso me consumir é pior do que a alternativa. 
Mata-la significa destruir uma parte de mim. Uma parte que me prende. E nem todo dia eu consigo. Crescer como um menino que desaparecia para dar espaço para os sonhos de outros é um treinamento que é dificil de desaprender. Não gosto de pensar nisso, mas preciso. Expor isso em palavras é um ato de luta. 
Cada palavra é uma faca que crava mais fundo em mim mesmo. 
Ainda assim, é preciso. 
Eu quero achar as palavras certas, que podem transformar essa dor toda em algo melhor. Que possa afrouxar essas correntes que me sufocam. 
Parte de mim quer gritar para o mundo, dizer "olhem para mim". Mas eu ainda sumo. Desapareço em mim mesmo. Me escondo de todos os olhares. Não sei falar. Não sei conviver. Não sei expressar o que sinto. Não sei ser humano. 
Sou uma casca que vive uma vida observando a vida que levo. Tomando decisões que não são decisões. Acreditando que um dia os sonhos de criança virarão realidade.
Não vão. 
Tudo se perdeu. O tempo passou. A roda girou. Só me resta juntar os pedaços. 
O quanto de mim sobrou? Não sei dizer. 
Queria ter respostas. Queria que alguem me contasse. 
Mas só sei que estou muito longe ainda.
Palavras ditas para o vazio, não mudam nada.
Palavras que vivem presas na minha cabeça, nunca são ditas de verdade.
Não posso mais viver assim. 
Não quero mais viver assim. 
Quero que leiam o que eu escrevo. Quero que saibam de toda a dor, do tanto que lutei. Quero que saibam das lagrimas que chorei. Do quanto meu corpo treme quando alguem me direciona a palavra. Do quanto eu passo horas do meu dia repassando cenários na minha cabeça para prever o que vou dizer caso alguem fale comigo. Como eu me esforço para ser uma pessoa fictícia. Uma pessoa treinada. Uma pessoa que não é uma pessoa. 
Sou o que fizeram de mim e sou o que me tornei. 
Sou todos meus erros e meus acertos. 
E quero que todos saibam que sou um garoto que escreve palavras pra ninguem ler. 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O Tolo e a Torre

 Ola meu velho amigo. 


Te vejo novamente entre os sussuros da noite. Tu me diz "bebe" e eu obedeço sem muita luta. O calice que tu me entregas tem gosto de sangue, mas não hesito. Te recebo como um velho amigo, como um irmão. Te vejo vestido de branco ao meu lado. Olhando para uma direção oposta. 

Quando me vejo, tu não está mais lá, mas escuto seu riso de escárnio. "Tanta luta, tanta distancia percorrida".  Ainda estou no mesmo lugar. 

Andei e andei e corri e caí. Não será esse o segredo da vida?

Uma grande repetição que só os tolos parecem perceber. Uma verdade (são só mentiras disfarçadas). Cada palavra. Cada promessa. Cada apreço. 

O fogo sobe pelas minhas mãos. Sua mão entre as minhas. Mas ainda continuo só. 

Sinto o vento gelado entrando pela janela, trazendo lembranças. Lembro do coringa que nunca pertenceu. Nunca dançou a dança de seus companheiros. Sempre só. Sempre livre. 

A promessa de cortar todas essas ilusões, não passou de mais uma ilusão. Não passou de mais um engano. Uma mentira. Uma promessa feita ao vento. 

Anos e mais anos e ainda não sei quem sou. O que sou. O que me tornei?

Minha voz falha, a rouquidão de uma vida de engolir meus próprios sentimentos. Um sufocamento que só quem voou muito perto do sol sente. 

Mas o sol se desfigura. Não passava de uma mentira. Nunca esteve perto. Sempre esteve no mesmo lugar. Inalcançavel. 

Ja desisti há muito tempo, isso são só lembranças de um outro tempo. A noite gélida e a solidão me fazem pensar nisso. Não há ação mais a ser feita. 

O caminho para a felicidade tu conheces muito bem. Só se recusas a andar por ele. 

Por medo de abandonar aquilo que passou anos conhecendo. 

Estaria eu louco? Enlouquecendo? Quem é são o suficiente para dizer? 

Quanto mais o tempo passa, mais vejo pessoas percorrendo o mesmo caminho. Pessoas se perdendo. E minha cabeça gira e tudo parece enevoado. Você aparece novamente, segura minha mão. Você que caminhou comigo quando todos me abandonaram. Meu eu feito de sombras. Que cuida de mim. Que diz chega. Que diz que nada vai ficar bem, mas que tudo bem ser assim. Tudo bem porque você vai sobreviver. Você vai absorver isso tudo. Você é a luz e eu sou a sombra que sua luz deixa por entre os escombros do que você deixou pra traz. 

Eu sigo ao seu lado. Eu continuo a te observar. Sei que tu me conheces melhor agora. 

Não temo sua companhia, por isso te recebo. Te saúdo. Te abraço. 

Estaremos nós dois juntos até o fim. Seja o vento que soprar. Seja a chuva. Seja o sol. 

A solidão se esvai porque nunca estive sozinho. 

Hoje a noite é sua. Talvez o dia também. 

Aproveite seu tempo. Estarei aqui quando se cansar. 

Nossos dias preso naquela torre já se foram. É tempo de caminhar de mãos dadas pelos campos.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Duas velas

O fogo de duas velas queima enquanto escrevo essas palavras. O ardor esquenta e deixa um leve aroma de fogo pelo ambiente. A leve penumbra se mistura com o gosto de cigarro. Uma dor que há muito me era como um estranho caminhando por uma rua deserta pela madrugada. A busca por uma esperança que parece me escapar pelos dedos. Uma força imensa em esticar e buscar com todos os meus arrepios. Uma energia que me é tão familiar. Uma dor que não sei se é minha ou se é sua. 
Despistei meu eu do passado por muitos anos, mas o revivi essas noites. Trouxe de volta, como um velho amigo que me traz um mal presságio. 
Desvendo todas as partes desse ser, sento com ele cada noite vazia. Brinco de xadrez mental com esse visitante, mas cada movimento sinto que estou cometendo um erro. 
Quando pressinto a vitória, um vento bate forte e muda as peças de lugar. (que erro, onde estava ?) 
As peças se desfiguram e se tornam palavras (abandone as esperanças!)
Algo em mim ainda cisma em acreditar.
Algo em mim ainda quer ver a luz por detrás dessa escuridão (não haveria de vê-la? basta olhar mais perto)
Queria poder quebrar esse vidro. Essa areia que cai e me afoga. O tempo que se foi e que se vai. 
Algo em mim grita. Coloco-me a andar. (em busca do que?) 
uma visão, um sussurro, um carro no meio da noite
Mas ah, como todas as vezes, me perco por essas ruas. Esses rostos que me olham e me julgam e me condenam. 
Como pode ser? Que aquilo que tanto me dói está cravado no fundo do coração dessa pessoa.
E não vejo como me aproximar sem me machucar. (essa dor é sua)
Mas ah, como todas as vezes, insisto em destruir. O caos me embebeda em busca de uma ajuda. (se eu já caminhei por esse labirinto, por que não me segues?)
Não é tão simples. Não achei saída, mas achei paz. Busquei a felicidade na jornada e encontrei um amor que há muito me faltava (não você)
Queria te levar comigo, mas é um convite que não faço em voz alta (talvez por já saber a resposta)
Não quero fugir mais. Eu sei quem eu sou. Eu sei de onde eu vim. Eu me lembro. (não consigo esquecer)
E essas dores cristalizaram em mim, mas queimam com seu olhar. Queimam com sua voz. Queimam com seu toque. 
Eu quero transformar o amargo em doce. Eu quero beber dessa água suja para que tu possa bebe-la límpida.
Não posso querer tanto, posso? (quem sou eu pra guiar alguém)
Mas algo me diz, algo vibra em mim, meu corpo se move sem minha permissão. Minha voz sai falhada. Sinto que se não me segurar, meu corpo flutuaria em sua direção.
A verdade é que eu não sei mais o que fazer (e há algo a ser feito?)
O ser soturno do passado tenta me abrir os olhos (não há luz adiante)
Mas como posso confiar? Como posso confiar em quem me enforcou. Como posso ter que escolher a espada que me atravessará, quando o que mais quero é te abraçar. 
Pois eu perdi o medo há muito tempo. Essas sombras não me apavoram mais. Essa imensidão de "quases", fiz dela minha cama. 
Se queres ir, vá. Não se demore aqui. Estou bem comigo mesmo. 
Mas se quiser ficar, vai ter que acertar o passo. Não te sigo para a perdição. 
Alçamos voo para o sol. De inverno já basta tudo que abandonei. 
Não quero mais dor. Não quero mais pesadelos.
As velas estão quase se apagando. Qual delas se apagará primeiro? 


sábado, 25 de dezembro de 2021

Natal

 É natal. E você não está com a gente. O que mais me dói é o silencio. Ouvi sua voz hoje e me virei. Podia jurar que estava a me chamar para jantar, mas como muitas vezes não ouvi. Me dói o pesar, me dói o pensar. Me dói sentir o mundo desabando e a sua voz antes tão calma e sempre alegre. No lugar o silêncio. Parte de mim sempre soube que isso ia acontecer um dia. Não o torna menos doloroso. Queria poder esquecer, mas parte de mim quer lembrar pra sempre. E sempre estará lá. Porque não desaparece. Você continua em mim. No meu pensar. No meu amar. No meu ser. No meu existir. Me dói não te ter aqui. Me dói não ter te tido mais perto. Voltei para onde tu sempre me chamava e encontrei um vazio. Um vazio que você sentia, quando me mandava uma simples mensagem e eu não respondia. Hoje é a minha vez de perguntar "Como você está? Está tudo bem por ai? Me responda" e só receber o silêncio. 

Gostaria de poder voltar. Te abraçar. Te beijar. Te dizer que você foi sem sombra de duvida a única mulher que já amei nessa vida. E dói. Continua a doer. Continua pesando. Por mais que os dias passem. Por mais que por minutos, horas, dias eu me distraia. Você volta e me abraça com sua saudade. E eu quero ela. Eu desejo ela. Eu quero que esse sentimento perdure, porque pra mim ele é você. A certeza de que você está perto. A certeza de que tu está bem. 

Esse natal foi frio e vazio. Não posso negar. A falta aperta o coração. Queria mais uma ver te ouvir, te ver, sentir seu cheiro, te tocar e te dizer que eu te amo muito mais do que você imaginou. Mas dói. Continua doendo. 

Não sei até quando. Acho que é a dor que terei que carregar. O natal não é mais o mesmo. Eu não sou mais o mesmo. A única coisa que não mudou é o quanto eu amo você. 

Espero que hoje tu entenda. Tudo que eu passei e tudo que eu suportei. De amor nunca foi falta. Foi só medo e insegurança. Foi só fraqueza. Me desculpa por tudo. 

Do amor mais sincero que qualquer um possa ter. 

Te amo pra sempre mãe. 

domingo, 15 de dezembro de 2019

Caos

Todas essas vidas passam pelos meus olhos em um segundo. Não sei quem são. Serão minhas? Um choro de desespero, tudo que não vivi. O passado parece eterno, petrificado. Algo me diz que ele é vivo.
Tento lembrar da minha vida e ela se perde. Sou um novo eu, mas quem eu era? Não sei mais.
Aprofundo essa dor e ela me é familiar, mas não sei de onde vem.
O passado parece vivo. Constantemente mudando, se contorcendo. Memórias de uma vida que não é minha. Meu peito se fecha de dor e tudo que eu nunca vivi parece tão claro.
As escolhas, as mudanças, os arrependimentos. Cada ponto da minha vida que parecem ter me trazido aqui. Cada curva onde eu me perdi. A vastidão de possibilidades me deixa triste.

Eu sou quem eu sou por quem eu era. Se quem eu era fosse diferente, seria eu o que sou? E se eu resolvesse mudar? E se eu pudesse mudar o passado? O meu eu seria quem?

Com quem converso todas as noites? Quem eu abraço até dormir chorando enquanto essas memórias fluem pelo meu coração?

Por que eu sinto que estou numa competição comigo mesmo? Eu queria respostas. Eu queria uma verdade, mas a verdade é o que eu luto constantemente para não enxergar, por que ela, no fim, vai me destruir e me deixar a deriva em um caos interminável

Não me leve a mal, eu conheço esse caos. Eu amei esse caos. Eu vivi.

A vontade que a vida tem, o eu de agora que quer viver e viver e reviver. Até esgotar todas as possibilidades, mas a verdade é que eu não vivo. Eu travo. Eu me sinto preso. Preso em mim mesmo, preso na minha história. Preso nesse mar de verdades que eu crio para me divertir. Nessas memórias que não existem, mas que poderiam existir se eu simplesmente fosse capaz de viver.

Mas eu não vivo. Eu existo. Eu sou.

Caos

segunda-feira, 18 de março de 2019

Prólogo

Sento-me novamente em frente a essa tela e me parece um mundo completamente estranho. Faz tempo que não mergulho novamente nessas águas. Não sentia necessidade. Minhas trevas, meu passado, todas as minhas sombras, parecem fazer parte de mim. Carrego-as para os lugares e nos sentamos no banco de uma praça mal iluminada e conversamos como velhos amigos presos numa história que ninguém vai ler.
Substitui essa tela por novos vícios. Substitui minhas paranóias pelo simples fechar de uma porta. Olho para o passado como quem olha para um livro terminado, empoeirado em uma prateleira. Nunca julgado, mas simplesmente estático, imutável, uma lembrança que não abro mais. Não por medo ou dor ou amargura, mas pela sensação de que não há mais necessidade de abrir. 
Ao mesmo tempo, vejo uma nova história se iniciando. Um novo ciclo subindo no horizonte. A sensação de terror me acomete aos poucos, mas logo me lembro de tudo que me trouxe até aqui. Não sei o que o futuro me espera. Não sei o que a esperança me trará, se é que trará algo. Durmo mal a noite, acordo cansado, preso e estagnado, mas a sensação de rompimento é real. 
Um novo livro está se iniciando. Até novos personagens aos poucos vão se apresentando. Iniciam um musical em minha mente, mas estão quase inaudíveis. 
Canta e ri e pula e tropeça. O bobo da corte pressagia um novo conto. Uma nova tragédia. Uma nova comédia. 
Talvez por isso esteja aqui de novo. Talvez por isso esteja com essas palavras me inundando. 
Sinto um desejo dentro de mim. 
E o horizonte de repente parece um pouco menos distante. 
Comecemos

domingo, 26 de agosto de 2018

Carta para o passado

Ola Sérgio,

como você está? eu sei que está bem. Um pouco assustado. Eu sei que tu és feliz demais nesse momento, feliz do seu próprio jeito. Eu sei que muitos não te entendem, ou tentam te compreender. Seus pais não te entendem nem um pouco. Eles acham que tem algo de errado com você e acredite, isso não vai passar tão rápido. Ainda hoje é difícil conviver com eles sem me sentir pequeno. Sem me sentir como você provavelmente está se sentindo agora. É difícil. Queria poder te dizer algumas palavras que você sempre precisou escutar, mas que nunca te disseram. Não há nada de errado em ser você. Você é feliz, você é uma pessoa maravilhosa, que tem uma capacidade de sonhar, de escrever, de criar, de aprender e o mais importante de entender com facilidade as pessoas ao seu redor. A vida tem muito dessas ironias poéticas, você vai se acostumar com isso no futuro. O menino que não se sente nem um pouco compreendido, consegue praticar uma empatia enorme com todas as pessoas. Relaxa, isso não é um defeito. É uma qualidade muito boa. Porém preciso te avisar com urgência. Você se sente incompreendido, mas por favor, não desista de se abrir pro mundo. É muito fácil desistir, se fechar, sumir, se esconder. E acredite tu tens muitos motivos para sumir, para viver mentiras. Você mente muito bem, esconde muito bem. Mas por favor, não deixe de se abrir. Se mostrar. Ser você mesmo. Deixe as pessoas entrarem. Deixe elas te conhecerem. Você é brincalhão, chato, inteligente, desajeitado, mas você gosta muito de abraços. Por favor, abrace mais as pessoas. Abrace quem você ama, abrace seus amigos, seja essa pessoa carinhosa que eu sei que tu tenta sempre ser. Muitos não vão sentir o seu amor, porque você não consegue expressar. É difícil, você procurar as palavras certas, só pra não conseguir dize-las. Mas diga! Diga varias vezes. Diga o quanto as pessoas são importante pra você. E por favor. Não tenha medo. Acredite, eu entendo o porquê de você se sentir vigiado o tempo todo. Você vive uma peça, um teatro. Decora falas, e quando todo mundo olha pra ti, você encena. Abrem-se as cortinas e tudo some de vista. Mas vez ou outra alguém da plateia levanta, e aponta, e grita, "diga a verdade" e você congela. Aprenda a dizer essa verdade o quanto antes. A aceitar essa verdade. Porque não há nada de errado com você. Você é muito especial. Mesmo. E tem um carinho enorme dentro de você querendo sair. Querendo criar conexões. Querendo amigos. Querendo ser visto. Mas ser visto é diferente de ser vigiado. Nem todo mundo está te olhando pra te julgar. Nem todo mundo quer que você seja perfeito. E ja te adianto, tu nunca vai ser perfeito! Tu vais cometer erros, tu vais fazer pessoas chorarem, tu vais trair a confiança de amigos, tu vais fazer sua mãe chorar. E isso é o que basta. Mas por favor, quando essas coisas acontecerem. Abrace essas pessoas, diga que as ama. SEJA VOCÊ! Seja quem você tanto quer ser, mas tem vergonha.
A professora que te traiu aquele dia, perdoe-a. E se perdoe por falhar. Se perdoe por não ter entendido, não ter tido a coragem. Mas ao mesmo tempo arrisque! Cante aquela canção. Deixe que seus colegas de tantos anos escutem sua voz. Eles gostam de ti, mesmo que tu não enxergue ainda.
A sua mãe que sempre te vigia. Que sempre quer o que acha que é melhor para você. Perdoe ela por esse descontrole. Ela tem os motivos dela, e acredite tu vai entender eles muito bem. Mas por favor, se aproxime dela. Abrace ela e ame ela. Ela precisa disso pra te entender.
Seu pai, que nunca sabe o que fazer pra se expressar. Mas ele te ama muito, ele te bota pressiona pra seguir em frente. Mas acredite, ele se preocupa bastante contigo.
Seu irmão que definitivamente não te entende. Tu vai odiar muito ele por diversos motivos. Sei que hoje em dia ele brinca sempre contigo, ele conversa com você e te abraça. Mas ele vai se tornar uma pessoa bastante diferente. Ele vai cometer muitos erros, e causar bastante caos na família. Por favor, tente entende-lo mais. Ele é uma das pessoas que vai te aceitar do jeito que é. Mas tu precisa ser capaz de ser esse Sérgio para que ele te conheça.
No mais tu vai fazer muitos amigos, e acredite, eles vão te amar do seu jeitinho. Do seu jeito estranho, quieto, brincalhão. Por isso deixe que eles entrem. Deixe que eles te vejam. Deixe o mundo entrar. E quem não te entender, perdoe. Deixe essa vigilância acabar. Deixe esses olhares pra trás. Você merece ser feliz do jeito que é. Arriscar as coisas do seu jeito. Fazer as coisas do seu jeito. Não se esconda. Não se silencie.
É muito fácil deixar o engano e a incompreensão prevalecerem. Mas não fique quieto. Mostre quem você é.
As pessoas vão continuar contigo. E quem não continuar, acredite, é melhor assim.
Espero que essa cartinha chegue bem a você. E que tu saiba que tem alguém aqui no futuro que te entende. Que te ama, e que está tentando muito forte te ajudar. Por isso seja corajoso.
Perdoe, abrace, ame, seja.

Do seu mais futuro eu,

Sérgio

terça-feira, 4 de julho de 2017

A Sombra

Parece que faz muito tempo. Os dias correm rapido. Quando me dou por mim o momento já passou. Não acho ruim. Ao contrário, me sinto bem. Ouso me sentir bem e ouso me sentir feliz. Como quem passa dias e meses numa dieta e finalmente pode degustar a vontade. A luz e a sombra. Como irmãs. Como que de mãos dadas. Aprendendo a se aturar e a serem amigas.
Concentro-me no passado e o presente se abre. Como uma tela que um dia comecei a pintar, mas parei. Retiro-a daquele velho armario empoeirado e noto os contrastes. Aquela criança que um dia desenhou mas esqueceu de pintar.
Aquele borrão de tinta preta que me fez desistir um dia. Que me fez odiar essa tela com uma força tremenda, que esqueci o desenho inicial. Com força a atirei pelas escadas, como quem quer esquecer.
Fugi de mim mesmo. Aquele desenho de um ser que hoje me parece cada vez mais eu.
Eu no escuro. Eu sozinho. Eu sem mais ninguem. O mais puro eu.
Jogado, manchado, empoeirado.
Não sei como ele foi parar nesse armario, sem luz, sem ar, com medo. Odiando quem o trancou ali e sem poder falar, sem poder gritar, sem poder respirar.
Parece que esqueci de mim mesmo. Por muito tempo. Passei a pintar telas disformes. Nunca completas. Sempre inacabadas. Sempre quases.
E aquele sentimento de que é assim que o mundo é. De que nada há de se fazer.
Procuro entender porque elas nunca tem fim. O que falta nesses retratos de cores psicodelicas. De cores e mais cores e mais cores.
Esses borrões de tinta que nada parecem fazer sentido. Que nada desenham e que nada significam.
Como se toda noite ao apagar as luzes, essas mesmas telas mudassem. Se embaralhassem. Transfigurassem em algo horrivel, com cheiro de sangue.
A mais bela tela que pintei. Manchada por sangue e cigarro. Por dor. Por tristeza. Por solidão.
Aquele velho azul marinho misturado com um raio de sol vermelho. (O que falta?)
Quando chego perto. Quando parece pronto. Quando parece certo.
A tela novamente se transfigura. Num homem. Enforcado. Enforcado por si mesmo.
E quem pintou essa tela? Quem difamou algo tão belo?
Não me canso. Tranco a porta desse quarto. Não vou sair até obter respostas.
E escuto um choro. Um murmuru. Quase como uma canção, tentando chegar perto, tentando se aproximar.
Um quadro no escuro, esquecido, manchado.
O primeiro quase. O primeiro interminável.
Aquele que me bloqueia e que me impede.
Aquele auto retrato em preto e branco. Que tanto odiei devido à esses tons de cinza.
Observo o quadro como quem tenta se lembrar o que estava sendo desenhado. (E quem o desenhara?)
Tantas cores vieram depois. Tantas combinações.
Mas a sombra que trazia profundidade. A luz e o brilho por dentre as nuvens carregadas de chuva. Os raios de sol perfurando o celeste. E as estrelas surgindo no oposto.
Mas falta algo. O interminavel quadro.
Parece que esqueci como pintar. Todas as cores que usei, se tornaram negras como petroleo.
Um sussurro no ouvido me diz "é essa a cor que tu precisas. Pinte"
E me ponho a pintar.
A sombra parece rasgar o quadro e o negro parece ter um brilho azulado, forte, impenetravel.
Como quem revela uma figura que finalmente parecia trazer luz ao que um dia fora desenhado.
Continuo com força. Com fé. Com um sentimento de plenitude.
E aos poucos o quadro vai tomando forma.
Aos poucos aquele negro mostra que é muito mais do que um. É sim o todo.É sim tudo. É sim parte do quadro.
E o quarto se incendeia. Brilha.
E aquela imagem do menino de anos atras aparece. Com medo. Com raiva. Querendo um lugar no mundo. Abandonado por todos e por mim.
Uma sensação de tremor me acomete.
Sinto que dei um passo. A primeira cor. A cor que sempre esteve faltando.
O quadro ainda não está pronto.
Mas sei que ele vai ser minha obra prima.
E todos os outros renegados, abandonados.
Terão uma nova forma e uma nova luz.
E uma nova sombra.

terça-feira, 14 de março de 2017

Elucidez

Seco. Muito seco. Passa o ar pela garganta e parece que desaparece. Respiro com uma força de vontade quase nula. A vontade de voltar no tempo, de achar um lugar em que eu possa chamar de lar. Estou fora de mim mesmo. Observando as coisas acontecerem, as ondas me acertarem, o vento me levando. Como nada parece mudar, tudo parece estagnado. O tempo parece contado. Não vejo as horas passarem, nem elas me vêem. Percorro os mesmos trajetos, as mesmas histórias. Nego o que me faz bem e abro os braços para o que me destrói.
Deixo me acertar. Deixo doer. Deixo sangrar. Depejo toda minha dor em mim mesmo. Crucifico o meu eu, como quem condena um ser maldoso de outra dimensão. Sussuro para mim mesmo "vai ficar tudo bem" e sinto um pouco de luz entrar. Mas o ribombar dos sinos a minha volta parece aumentar o tom. Bang bang. É Meia noite no relógio da vida. Um fim e um recomeço.
Novamente me sinto leve. O chão parece de uma finura camada, prestes a partir embaixo de mim. Você vive em mim ainda. Como um passado que não some. Não sai. Não muda. Não segue adiante. Como um quadro emoldurado, imutável, sujo pela poeira e por lagrimas de sangue.
Desvio o olhar, mas a voz me chama. Do fundo do passado, do longe e distante mundo das possibilidades.
Não mudei de ideia. A realidade não é diferente devido ao que sinto. Mas a musica desacelera. O passo parece mais pesado. A dor que sinto parece vir de outro lugar. De uma solidão que sempre existiu, mas que por um curto periodo de tempo, pareceu distante.
E agora ela me assola os pensamentos. Distorce minhas memórias. Destoa minhas melodias.
Toda canção parece me levar pra longe. Todo longe, parece tão perto. E todo você, me parece perdido.
Não encontro outro caes, outra porta, outro ritmo.
Só danço a mesma musica.
Sozinho.

domingo, 27 de novembro de 2016

Ácido

O gosto desce queimando em minha garganta. Não me sinto bem. Focalizo toda minha aflição. Um grito de desespero ecoa pelos corredores dentro de mim. De repente me vejo só, num mundo frio. Os corações que passam ao redor, parecem pedras, afiadas, que te cortam sem querer (as vezes mesmo por querer). Tento me moldar, tento deixar as coisas fluirem a contento. Não subo a correnteza, tendo me deixar levar. Mas o gosto. Continua. O medo de um futuro que parece ser só isso. 24 anos de sonho, de aspiração. O desejo bate mais forte dentro de mim. Um amor, uma vida a dois, me encontrar no outro. Mas que outro? Não acho outro. Tudo que acho está petrificado, preso num espelho sem reflexo. Um espelho que agora parece trincado e que não importa o que tu faça, só consegues olhar aquela falha na imagem vazia. Não me reconheço. Não reconheço ninguem. Estou ficando louco? Onde estão aquelas velhas certeza, aquele murmuro que diz que vai ficar tudo bem? Uma descrença enorme me acomete. Sinto o mundo cair nas minhas costas. E eu sou esmagado, sem força, sem tempo pra respirar, tragando cada vez mais desse liquido. Não me faz bem. Mas não existe outra opção. Não nesse mundo. Não nesse caos. Não nesse circulo do inferno. Só quero panaceia.

domingo, 13 de novembro de 2016

O Temporal

Vem sem avisar. Permanece enquanto pode e te encharca. Por dentro e por fora, Te afoga com um gosto amargo de cigarro. Te leva ao extase e depois desaparece como uma chuva de verao. Vira teu mundo de cabeça pra baixo e eu começo a me perguntar se nao era assim que deveria ser. Os quadros voando com cheiro de suor, ainda me deixam confusos. Canso de pensar. Me deixo levar pela onda abstrata. O mundo nunca teve sentido mesmo, pra que tentar achar razão. Não importa o que está certo agora, o que me importa é que nunca me senti tão vivo. Tão em paz. Mas são algumas horas de sonho. Algumas horas de sono. Estou acordado? A dor que sinto se mistura com um prazer intenso. Como quem se embebeda antes de grande batalha. E a batalha nunca chega. A sensação de preso numa armadilha que a qualquer hora pode trazer tudo a perder. A corda bamba do destino. A roleta russa onde todos perdem. O temporal que vem como uma lufada de ar quente e desaparece com um frio da solidão noturna. Mas o que me trouxe isso de bom? Ainda é dificil dizer. Só sinto que não sou o mesmo. Só sinto que cada vez que ela passa. Meu coração para de bater por 5 segundos. E quando vejo não sou mais o mesmo. Não sou eu. Sou algo novo. Algo inominável. Algo que gosto de ser. Então continue. Até nao poder mais. Até tudo acabar. E que o fim seja só o início de mais uma nova tempestade de verão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um menino chora de madrugada. Escuto-o chorar como se estivesse no meu proprio quarto. Acordo assustado e me levanto. As forças me traem e percebo que nunca me levantei. O choro começa a aumentar de tom, quase como uma musica antiga. Sinto vontade de chorar também. A luz entra por uma fresta da janela. Ja é dia. Mais um dia e tenho que levantar. A vida começa. A rotina de trabalhos, dores, amores. A busca incessável por algo fugaz, que aparece e desaparece como o menino que chorava. Não o escuto durante o dia. Passo pelas casas da cidade, os rostos do transporte publico, o portão que separa os trabalhadores do povo comum. Sento-me na cadeira e começo a viver. As horas passam deslizando pelos meus olhos. Uma vontade subita aparece em meu estomago. Uma tempestade que me faz perder o chão. Sinto que estou caindo, mas continuo sentado. Estou sozinho de novo. A cortina se encerra e me vejo preso nessa escuridão novamente. O choro que havia esquecido ressurge como um sussuro de plano de fundo. Finjo não ouvir. Ignoro enquanto posso. As pessoas passam novamente sorrindo. Uma musica cada vez mais alta me impede de pensar. O ar começa a ficar pesado. Sinto que vai chover. Ainda assim decido ir andando pra casa. De repente o choro fica mais forte. A voz fica mais alta, parecendo gritar. Meu coração dispara. Passo pela casa que nunca conheci quem mora, mas a vontade de entrar é grande. Paro por 2 segundos e observo. Devo? Não. Esqueço esse pensamento como quem esquece as magoas do passado. Continuo a caminhar com o coração aflito. Chego finalmente em casa (casa? sei mesmo o que é isso?) e espero a chuva chegar. Fecho as cortinas e deixo somente uma frestra pro ar passar. Deito na cama e penso no menino chorando. Ele está em silencio novamente. Vejo as sombras que se formam com o passar dos carros da rua. Começo a me perguntar se realmente consegui levantar aquele momento. Se não estou ainda pesado, sem forças, preso em meu mundo que parece nunca fazer sentido. O menino ainda em silencio parece ter desaparecido. Um sentimento de extrema solidão parece brotar. Não tenho nem mais meus fantasmas. Não tenho nem mais a mim mesmo. Perdi alguma coisa em algum lugar. O silencio da madrugada fere meus ouvidos. Só me resta rezar pro sono vir. E amanhã. Levantar novamente. Até o dia em que as forças me faltarem.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Estiagem

Há dias que não chove. E ainda assim me sinto completamente encharcado. Segui todos os caminhos possiveis. Todas as direções dos que me guiaram. Por um tempo me senti bem. Olhava com esperança para o futuro. Mas o tempo fecha. O sol de repente some. Mas nunca chove. A falta da chuva parece quase inotável. Muitos comemoram, muitos ficam receosos. Eu só me sinto só. Me sinto só porque chove sem parar dentro de mim. Uma tempestade que fingi não notar, que ouvia somente os trovejares por traz de tudo que eu faço. Todas as manhãs, as noites de sono mal dormidas. Os pesadelos constantes. O orgulho e o amor de tantos não entram. Os bons desejos, as boas sortes. Tudo fica de fora.
Há dias que não chove. E ainda assim me sinto sóbreo. Com um mau gosto na boca que não sai, nem com doce, nem com tabaco. As gotas de chuva parecem constantes em mim, mas olho pro céu e vejo nuvens brancas que se transfiguram em uma profecia. De repente parece certo, a solidão é o meu fim. Toda aquela luz, aquela força que eu sentia. Se perderam em alguma gaveta dentro de meu ser. E procurar me parece trabalhoso demais.
Há dias que não chove. E ainda me falta o ar. Percebo que estou me segurando há quanto tempo? Quantos dias, meses, seculos. Esse ar que me sufoca. Tento respirar, mas tudo que vem é uma massa quente que parece me matar aos poucos. Busco pelos cantos alguma ajuda, algum profeta que me diga, "há tudo de melhorar". Mas a vida segue. E não encontro nem paz, nem caes.
Há dias que não chove. E ainda me falta você

terça-feira, 12 de julho de 2016

Tempo e fé

Corre depressa e despercebido, mas quando notado parece estar sempre lá. Começa a desacelerar e aos poucos parece uma infinidade até o proximo instante. Começo a querer que o tempo corra, mas ele pesa cada vez mais em minhas costas. Quando está de bom humor, quase não noto. Quando acordou do lado errado, da um aperto no coração. A alma parece querer fugir. Um sentimento de claustrofobia temporal. Como se o tempo fosse apertado demais. Sem ar. Sufocado. Sei que tenho que esperar. Sei que aos poucos as mudanças acontecem. Que os pequenos avanços são a chave. Ter fé é o ato de abandonar o tempo. Porque para ter fé, é preciso que ela resista e persista e não se desfaça. É ousado comprar essa briga. O tempo vive a derrubar a esperança com extrema facilidade. Parece que basta um segundo errado. Um segundo nunca esquecido. Um segundo que te assombra. E a esperança perde todas as forças. Vive com medo do tempo. Do segundo que chegará e abalará toda sua fundação. Acorda e dorme todos os dias assustado, com medo de que sua fé seja abalada. A fé deve ser tão cega, que nem segundo passará a ser notado. Nem tempo. Nem eternidade. Essa esperança, pra sobreviver deve ter a coragem de ir contra o tempo. E o tempo é sagaz e não se importa de esperar. As vezes parece uma tortura. As vezes parece não valer a pena. Uma perda de tempo.
Mas o que mais posso fazer com meu tempo? Se não me afundar nessa esperança?

domingo, 29 de maio de 2016

Paisagens Noturnas

Um grito no meio da noite. Meu? Ou seu?
Acordo assustado, suor frio, coração acelerado. E percebo que não estou em casa. Acordo perdido, não consigo ver nada. O desespero me consome. Procuro algo. Mas não me recordo o que. Procuro desesperadamente. Não consigo achar. Começo a procurar pelo chão. Vou cavando até minhas unhas sangrarem. Nada. Começa a chover (ou já estava chovendo só não percebi?) e a lama começa a afundar sobre meus pés. Só consigo afundar aos poucos. Um pouco mais de desespero. Um pouco menos de ar. Meu coração parece sair do meu corpo. "Você falhou" ele me diz e parte para a escuridão. Leve-me daqui. Esqueça isso tudo.
Minha mente divaga entre fantasmas do passado. Aqueles que se foram e os que me abandonaram no meio do caminho. Todas as desistências. Todas as dores. Tomavam forma e assistiam minha derrota. Mentiras e mais mentiras. Enevoando minha mente.
"Ele podia ter tentado mais. Ele podia ter mudado", escuto uma voz vinda das sombras. "Ele não era quem você achava que era".
Uma musica começa a tocar no fundo. Como um hino de igreja. Sinos. Tambores. Trovão.
Não suporto mais. Surto. Quero respirar. Quero sair. Aos poucos as sombras que me assistiam me envolvem. Transfiguram-se em correntes que me apertam cada vez mais. Não sinto nada. Só caio. Afundo. Junto minhas ultimas forças e grito. "Não é real. Não é real. Não é real."
Um grito no meio da noite. Meu? Ou seu?

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Afogado

O terror continua. Depois de 1 mes, me perco ainda na estrada. A luz ainda me parece escura. O sol brilha no céu, mas não esquenta. Os pingos de chuva não parecem molhar. E o frio, parece constante. Confundo o inverno com minha alma e coração. A cada amanhecer, um gosto amargo na boca que nem os deuses conseguem tirar. Aquela sensação de fracasso. De que, há muito, o tempo anda zombando de ti. Afundo nisso tudo e me deixo levar pela correnteza. Olhos por todos os lados não parecem me enxergar. Os gritos abafados parecem morrer logo ao sair de meus pulmões, dando lugar às cinzas e fumaça e agua salgada. Mas bebo como se nao tivesse volta. Como se tudo que eu precisasse fosse um final. Uma destruição pequena. Uma destruição grande. Os fantasmas já estão cansados de assombrar. Não tenho mais animo pra sentir medo. Só me deixo levar por essa nova onda. Compactuo com o diabo pela alegria de um sorriso. Deixo a luz aos poucos desaparecer. Só um pouco. Só o suficiente pra me deixar cair nesse pesadelo de sempre. Esse ciclo vicioso de intento e descontento. Queria que tudo fosse certo, mas nada o é. Quero fugir, sumir. Não aguento mais esse cenário, essa escuridão, essa luz. Só há isso no mundo? Esse eterno impasse entre ser e não ser. Mudar. Melhorar. Estou exausto de lutar. Exausto. Afogado com meu proprio sangue.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Desespero

"Um monstro" ele disse. Mal sabia que o monstro era eu. Perdido em meio à todas minhas desculpas e sonhos. Perdi a calma, perdi a humanidade. Falhei comigo mesmo e deixei as trevas entrarem. Sempre soube que elas existiam. Sempre soube que estavam lá. Mas sempre estavam monitoradas, presas, observadas. Nunca pensei que aos poucos, essas trevas me intoxicariam. Que aos poucos me fariam machucar as pessoas que amo. Ou talvez seja só minha ilusão.
Já aconteceu antigamente nao? Meu despreparo, minha angustia, minha ansiedade. Fizeram amigos proximos se afastarem. E hoje. Hoje, vejo o quanto eu não sou nada do que eu sempre pensei que fui.
O coringa da carta do baralho? Só que ninguem me contou da face sengrenta do harlequino disfarçado. A Obssesão, O medo. A raiva. E que raiva. Um ser monstruoso me consome por dentro, sussura nos meus ouvidos, escurece minha mente.
Não sei mais o que sou. Não sei mais quem sou. Estou perdido no meio desse mar de incertezas.
Me tornei um Monstro. Um monstro que sempre evitei ser. Um monstro que nunca quis que existisse.
Mas que sempre esteve lá. Sendo alimentado aos poucos. Escondido entre as verdades que procurei. Escondido entre a paixão pelo eterno e pelo destino.
Só sei que errei. Errei muito. Errei de uma maneira que não podia ter errado. Passei todos os limites.
Explodi com o mundo e com minha vida.
Eu não sei mais quem sou.
Sempre me considerei uma pessoa boa. Uma alma boa.
Mas nunca que alguem que seja bom tenha feito o que eu fiz. O que eu faço.
Estou só me enganando? Será essa minha forca? Meu destino é sucumbir a essas trevas e viver uma vida de obsessao e de desespero?
Não quero acreditar nisso.
Não quero mais esse mundo cinza.
Deixe a luz entrar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

1922

"Vou compartilhar algo que aprendi em 1922: tudo sempre pode piorar. Há horas em que você acha que já viu a coisa mais terrível que podia acontecer, aquilo que parece reunir todos os seus pesadelos em uma especie de horror medonho e real, e o unico consolo é que não pode existir nada pior. E, mesmo que haja, você vai enlouquecer se essa coisa acontecer, e não terá mais que pensar nisso. Mas existe algo pior, você não surta e de algum modo segue em frente. Você pode acreditar que toda a alegria do mundo acabou, que o que você fez deixou tudo o que esperava ganhar fora do seu alcance, pode até desejar que fosse você que estivesse morto - mas segue em frente. Percebe que está em um inferno que você mesmo criou, mas segue em frente mesmo assim. Porque não há outra opção."