terça-feira, 29 de janeiro de 2013

      "Se a história tcheca pudesse se repetir, seria certamente interessante experimentar a cada vez a outra alternativa e em seguida comparar os dois resultados. Como essa experiência não pode ser feita, todos os raciocínios são apenas um jogo de hipóteses.
      Einmal ist keinmal. Uma vez não conta. Uma vez é nunca. A história da Boêmia não vai se repetir uma segunda vez, nem a história da Europa. A história da Boêmia e a história da Europa são dois esboços que a inexperiência fatal da humanidade traçou. A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa, como uma coisa que vai desaparecer amanhã.
      Tomas pensou mais uma vez com uma espécia de nostalgia, quase com amor, no jornalista da silhueta alta e curvada. Esse homem agia como se a história não fosse um esboço, mas um quadro terminado. Agia como se tudo o que fizesse fosse se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno, e estava certo de que nunca iria ter duvidas sobre seus atos. Estava persuadido que tinha razão e isso não era nele sinal de um espírito limitado, mas uma marca de virtude. Ele vivia numa história diferente da de Tomas: numa história que não era (ou não tinha consciência de ser) um esboço."

A insustentável leveza do Ser - Milan Kundera

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